Nossa Missão

"Promover desenvolvimento social, em parceria com o poder público e privado, de forma cooperativa e solidária, tendo como eixos: Educação, Cultura, Ecologia e Cidadania."

Consciência Negra: História que ainda aprisiona
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“Éramos meu pai e eu
E um negro, negro cavalo
Ele montado na sela,
Eu na garupa enganchado.
Quando? Eu nem sabia ler
Por quê? Saber não me foi dado
Só sei que era o alto da serra
Nas cercanias de Barra.
Ao negro corpo paterno
Eu vinha muito abraçado
Enquanto o cavalo lerdo
Negramente caminhava.
Meus olhos escancarados
De medo e negra friagem
Eram buracos na treva
Totalmente impenetrável. [...]”

Decidi escrever sobre o dia da Consciência Negra, após um evento muito “curioso”. Estava com meu irmão e a sua namorada no supermercado, nós duas estávamos com bolsas. Um homem nos abordou, pedindo licença e perguntando para outro homem que estava ao seu lado: “Qual a diferença das bolsas delas para a minha?” (ele estava com uma bolsa tipo maleta) e prosseguiu: “Por que elas podem entrar com bolsa no supermercado e eu não?” O funcionário do supermercado, não tendo a resposta, deu às costas para o homem, ignorando-o completamente, enquanto ele questionava indignado. O homem que indagava era negro, e eu não tenho dúvidas que ele foi impedido de entrar com a maleta por este fato. A revolta que me toma pelas entranhas é proporcional à imbecilidade deste sujeito que ainda insiste em segregar negros. E eu me questiono: mas… Ainda?

Sim, ainda. Quando falamos de “Consciência Negra” quais os principais elementos surgem à mente das pessoas? Acredito que a palavra “consciência” traz um sentido de responsabilidade da população, como se todos fôssemos responsáveis pela inserção dos negros na nossa sociedade. Sim, é uma linha de raciocínio que faz sentido, no entanto, prefiro pensar antes disso e levantar alguns questionamentos: O que aconteceu para que precisássemos incluir os negros? Por que algum dia eles foram perseguidos, escravizados, segregados? Se hoje precisamos adquirir a consciência para nos responsabilizar, é porque uma extrema crueldade aconteceu. E se precisamos incluir, é porque um dia eles foram excluídos.

A história nos mostra que a escravidão é tão antiga quanto à própria humanidade. Dessa maneira, os negros foram reificados, transformados em mercadoria, retirados de suas famílias. Enquanto alguns exerciam seu poder no próprio corpo dos negros, estes tiveram amputadas suas defesas, e excluída a condição humana de cada negro. Quando me pego pensando nessa crueldade, me questiono: Por quê? Existe alguma explicação para isso? Mesmo que nada ou ninguém justifique o que aconteceu, ainda assim, alguém sem nenhum resto de humanidade se prontificou ao menos a dar alguma explicação para tudo isso? Houve uma explicação, dolorosa, sangrenta e autoritária: a supremacia da raça caucasiana, a eugenia, ou seja, somente através dos “bons genes” é que a humanidade atingiria a evolução. Através de um raciocínio ocidental, mais especificamente europeu, esses bons genes seriam somente a raça branca. Assim, essa ideia deu origem à escravidão, às guerras civis, ao holocausto, ao apartheid, a diversas violações de direitos humanos e aos grupos perseguidores e disseminadores de ódio como Ku Klux Klan, neonazistas, skinheads, entre outros.


Posso afirmar, sem medo de errar, que toda essa história construída em cima de preconceitos e violações criaram a ausência de alteridade e uma visão de “eu versus o outro”, cuja única justificativa é ver a diversidade como explicação de aniquilação do outro. A partir de tanta injustiça de enxergar o outro como ser menor, podemos levar em consideração grandes figuras que lutaram para que nossa sociedade repensasse suas práticas: Nelson Mandela, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares. Grandes visões geraram grandes feitos: o surgimento de ONGs, de políticas públicas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e entidades protetoras aos afrodescendentes. Apesar do avanço, ouso dizer que substituímos as chacinas por passos de formiga. Estamos longe de ser uma sociedade livre do preconceito racial, e tudo que foi dado aos negros não passa de direitos que deveriam ter sido sempre deles. Dizer que uma sociedade hoje não é tão agressiva e hedionda como era, não significa dizer que os direitos são preservados, que não há discriminação e nem segregação. Vide o caso do homem de maleta no supermercado que citei acima.

Neste cenário, a criação do lema “todos somos iguais perante a lei” soa como uma lógica fracassada. Tratar o sujeito de forma genérica desconsidera aqueles que já tiveram seus direitos violados justamente pelo fato de ser diferente. Nessa ótica, os sujeitos de direitos devem ter uma resposta diferenciada, porque a necessidade de um negro se difere da necessidade de um branco, que nunca foi discriminado racialmente. Boaventura de Souza Santos explica esse ponto: “temos o direito a ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza, e temos o direito a ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza desigualdades.”

Quentin Tarantino retratou em Django Livre a temática do negro escravizado quando o personagem branco, Dr. King, se manifesta de maneira política: “Sinto-me culpado”, trazendo a culpa branca para o cenário de racismo dos Estados Unidos. Assim, pelo dia de hoje, 20 de novembro, considerado o dia da Consciência Negra, mostro meu apelo: somos todos responsáveis todos os dias pela segregação racial, mas da mesma maneira que fomos ensinados a segregar podemos ser ensinados a olhar o outro como ser humano, como pessoa. É um apelo pela população negra, mas mais do que isso: um apelo pela humanidade. E que o sonho de Martin Luther King seja realizado, enquanto ecoa sem destino suas doces palavras “I have a dream… (Eu tenho um sonho...)”

Natália Ferracin - Coluna Causas Perdidas - Literatortura
Revisado por Luisa Bertrami D’Angelo